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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Nosso mundo: The Story of Stuff

Infelizmente nao tenho tido como escrever nesse blog e também nao terei como faze-lo nos próximos meses. Entretanto, gracas ao Joao, que teoricamente escreve nesse blog e que agora passa de qq forma a ser colaborador, "posto" (do verbo "postar") o video abaixo, que resume 99% do que eu já pensei ou quis pensar, escrevi ou quis escrever.

O video é longo (para os padroes desse blog), cerca de 20 minutos, mas com certeza ABSOLUTA vale a pena - e mais a pena do que os últimos 20 minutos que voce gastou na televisao.

(clique aqui, caso o video nao carregue na janela abaixo)



(clique no "play" para iniciar o video e nessa caixinha engracada com quatro setinhas, aa direita, para ve-lo em tela cheia)

É isso. Em nosso mundo, em que TUDO está de uma maneira ou outra baseada no Consumo, a solucao para nossos problemas só pode obviamente estar na forma em que consumimos.

Nao se engane, nao se iluda e nao tire o corpo fora. Pense nas consequencias de suas acoes e de suas compras no futuro de seus filhos e netos. Faca sua parte e seja feliz.

Até "breve".

domingo, 9 de dezembro de 2007

Ainda somos os mesmos e vivemos


Acho que toda crianca que teve a oportunidade de estudar sentiu, independente do caminho que tomou em seguida, indignacao e repulsa quando estudou no primário a questao da escravidao. Como puderam as pessoas daquela época sustentar tamanho horror só para poder ter um pote de acucar em sua mesa, por exemplo? E como podiam elas saboriar aquele acucar sabendo como ele era produzido?

É uma pena que ainda no primário nao seja ensinado a essas mesmas criancas que, como cantaria Elis, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos ancestrais escravocratas. Hoje, em pleno século 21, parte de cada barra de chocolate produzida pelas grandes empresas do setor é feita a partir do cacao produzido por criancas escravizadas.

40% da producao mundial de cacao, principal matéria prima utilizada na fabricao de chocolate, vem da Costa do Marfim. Conforme consta no site do Fundo International para o Direito do Trabalho (ILRF), segundo dados do Departamento de Estado dos EUA, 109.000 criancas trabalham na industria de cacao da Costa do Marfim sob "as piores formas de trabalho infantil" e 10.000 sao vítimas de tráfico infantil e escravidao.

Por "as piores formas de trabalho infantil", entenda-se longas e duras jornadas de trabalho, onde criancas as vezes menores de 11 anos carregam pesados sacos de cacao nas costas, utilizam machados e pesticidas (sem nenhuma protecao), ganham uma miséria por isso e nao estudam. As que sao escravizadas sao compradas ou sequestradas nos países vizinhos, sao constantemente espancadas, trabalham sem receber nenhum dinheiro, por uma quantidade insuficiente de comida e nao podem voltar para suas casas.

Esses números podem variar para mais conforme a fonte, mas o certo é que a grande maioria do cacao produzido na Costa do Marfim o é sob as condicoes descritas acima. As grandes empresas do setor compram o cacao em Mercados de Troca, onde nao há nenhuma distincao do cacao pela sua origem. Portanto, em média, praticamente 40% do cacao presente em cada barra de chocolate de empresas como Nestlé, Hershey, M&M Mars, Cadbury, Godiva, etc., é produzido nessas condicoes.

Nas palavras de Salia Kante, diretor do Save the Children Fund, em Mali:


"People who are drinking cocoa or coffee are drinking their blood. It is the blood of young children carrying 6kg of cocoa sacks so heavy that they have wounds all over their shoulders. It's really pitiful to see."


As grandes indústrias do setor admitiram o problema em 2001, quando prometeram para 2005 um sistema de certificacao que colocaria fim a essa exploracao e regularia o mercado no nível dos produtores, sob o que seria o Cocoa Protocol. Entretanto, a única coisa que aconteceu no setor em 2005 foi o lancamento do filme a Fantástica Fábrica de Chocolate, a promessa foi postergada para 2008...

Qual a solucao e o que voce pode fazer?

Agora que voce sabe como é fabricado o delicioso chocolate que voce adora saborear, imagino que voce queira saber o que voce pode fazer para mudar essa situacao.

Só há uma solucao para essa questao, que nao é deixar de comer chocolate, mas comprar apenas as marcas que tenham o selo Fair Trade. Ao comprar marcas certificadas pelo Fair Trade voce apoia a manutencao de fazendas de cacao que adotam um sistema produtivo justo e HUMANO, e pressiona as grandes indústrias a se adequarem a esses padroes, pois a única coisa que elas sentem é o bolso e nada melhor do que a perda de seus consumidores em respostas a suas práticas desumanas. A prova que a pressao funciona é que a Cargill, gigante no setor agro-alimentar, acabou de anunciar que vai implantar um sistema de certificacao para a compra de seu cacao.

Para saber mais sobre Fair Trade visite os links abaixo:
http://www.fairtrade.net/
http://www.globalexchange.org/


Tony's Chocolonely

O jornalista e chocólatra holandes Teun Van de Keuken descobriu esse problema em 2001. Depois de tentar em vao pressionar as grandes empresas do setor a adotar um selo anti-escravidao ele criou sua propria marca de chocolate, Tony's Chocolonely, lancou um documentário e tentou processar a si-próprio, baseado na lei holandesa de que quem compra conscientemente um produto que foi produzido de maneira ilegal também é responsável pelo ato.

Segue logo abaixo trailer de seu filme.

Há vasto material na internet sobre o assunto e o problema pode ser facilmente confirmado.

NAO SEJAMOS MAIS OS MESMOS.





Mali's children in chocolate slavery - BBC, 12 April, 2001
http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/africa/1272522.stm

Child cocoa workers still 'exploited' - BBC, 2 April 2007
http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/africa/6517695.stm

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Uma Tarde no Museu

Como diz o Mainardi, Londres é uma boa cidade para se vagabundiar. Um dos programas que eu adotei para preencher o tempo livre é visitar o British Museum. Com excessao das exposicoes temporárias, que sao geralmente pagas (no momento o destaque sao os guerreiros de terracota de Xi'an), o museu oferece uma viagem gratuita por uma monumental colecao que sempre me provoca diferentes emocoes.

No meio das imensas galerias do BM há uma exposicao temporária e gratuita que é no mínimo curiosa. Ela fica na sala 69a, cuja existencia lembra a do andar 7 1/2 do filme Quero Ser John Malkovich. Trata-se, no meio das monumentais galerias com 8 metros de pé direito sobre a Grécia e a Roma antigas, de uma salinha que é na verdade um hall de entrada para um laboratório de estudos de uso interno. A sala é meio claustrofóbica, pois o teto é baixo (cerca de uns 2-2.5 metros), as paredes sao de aco laminado e a área nao deve passar de uns 15 metros quadrados. Para minha surpresa essa é a sala onde está hospedada uma das exposicoes temporárias anunciadas no programa e que eu havia escolhido para ocupar meu sábado enquanto a Pri participava de um evento sobre moda e cultura nos tempos idos. A descricao prometia. Diz o programa:

Inhuman Traffic: The Business of The Slave Trade
Examining how the Transatlantic Slave Trade functioned over 500 years and featuring resistance leaders and their legacy.


Eu realmente estava curioso para saber o que o monumental museu ingles ia dizer sobre o tráfico de escravos e seu legado e fiquei bastante bem impressionado com o cartaz de entrada da exposicao, que é apresentado ao lado de uma belíssima escultura de rosto de uma mulher africana e que diz:


"Over ten million people were taken from Africa during the Slave Trade, which lasted for more than three hundred years. They were forced to travel thousands of miles across the Atlantic to work on plantationin the Americas.

The trade made some people and place extraordinary wealth, but at a terrible cost to others. This movement of people and money still has a profund impact on our world, two hundred years after the Slave Trade was abolished by the British Parliament in 1807."


Nao era pouca coisa. O cartaz de entrada contrastava de maneira importante com a cómoda e muitas vezes por aqui defendida versao de que a escravidao é uma coisa do passado, sem considerar o impacto da mesma em nossos dias e a responsabilidade de "some people and place". Na mesma hora me perguntei se um dia eu veria um cartaz semelhante em um lugar como esse falando da colonizacao em si ao invés da escravidao.

Tudo na exposicao é interessante, da apresentacao de alguns dos "Doze Homens Negros", os "Filhos da Africa", que lideraram a campanha abolicionista inglesa, ao moderno "Tony's Chocolonely", que denuncia o uso de escravos, hoje, na producao do cacao usado na fabricacao do chocolate que eu como. Fiquei bastante tempo nessa sala, que lembra uma geladeira moderna ou uma morgue, e pude concluir que o tamanho e a localizacao da exposicao apenas reflete o interesse do publico ingles para o assunto. Saí da sala um pouco atonito e continuei observando a magnifica colecao sobre a Mesopotania.

OBSERVACAO: eu acabei esse post um pouco abruptamente e deixei de falar algumas coisas que eu tinha em mente sobre a origem da colecao do BM, pois ao escrever o parágrafo acima eu resolvi ir pesquisar o Tony's Chocolonely. Estou chocado. Vou continuar a pesquisa e escrever sobre o assunto em próximo post.